A Magia ao Nosso Alcance

Maio 7, 2007

Pode parecer estranho, mas toda a nossa vida, nossos melhores e mais simples e felizes momentos como seres humanos, se resumem à apenas uma coisa: Pijamas. É isso mesmo! Pijamas! Mas antes de qualquer crítica e o risco de você parar de ler este livro, me conceda uma pequena chance para explicar.

É curioso notar que à medida que envelhecemos nossa atração por pijamas cresce assustadoramente. Provavelmente, você esteja se perguntando se algum dia já gostou de pijamas. Acredite, você gostou! Talvez não se tenha dado conta disso na época, mas aconteceu. Ou então você esteja se lembrando que dormia de short e camiseta. Não importa. Se você dorme vestindo alguma coisa, automaticamente ela se transforma em pijama. Não me culpe por isso, é uma regra do mundo encantado das crianças. Mas, se você prefere pelado… Bem, vamos deixar as coisas engraçadas para mais tarde.

Infelizmente, você que se tornou adulto, deve estar preocupado demais com a sua vida para se lembrar do seu pijama, mas, se você deixar, eu posso lhe ajudar a encontrá-lo novamente. Porém, se você é uma criança ou apenas um velho senhor ou senhora, considere-se com sorte. Pijamas finos ou grossos, de flanelas ou não, o que importa é que tenham listras, desenhos ou que pelo menos sejam coloridos. Ah! É preciso ter bolsos também; pelo menos um. Não perca seu tempo se perguntando para quê. Eu também não sei.

Pijamas nos trazem lembranças da infância. Faz-nos pensar em chocolate quente em nossa caneca preferida numa noite fria e chuvosa. A cama quentinha nos esperando, mas sem ter muitas esperanças que vamos nos deitar logo, já que preferimos ficar um pouco mais de tempo sentados à frente da televisão vendo o programa ou desenho que mais gostamos enquanto saboreamos o chocolate e os biscoitos recheados — me desculpe, devia ter mencionado antes os biscoitos. Vou tentar não cometer mais erros “graves” como este.

 Há aqueles momentos também que ficamos sentados no tapete macio da sala brincando com nossos brinquedos ou trocando figurinhas — figurinhas mesmo, daquelas com super-heróis, ídolos do esporte ou desenhos animados com nossos irmãos e primos; ou quem sabe, com algum amigo que foi passar a noite lá em casa ou vice versa. Histórias contadas pelos nossos avós ao pé de uma daquelas poltronas bem confortáveis, trazendo-nos, com todos esses ingredientes, um sentimento de magia ao qual só sabemos que existe quando somos crianças. Mas não acaba ai. Quando finalmente vamos para as nossas camas, depois, é claro, de muita insistência de nossos pais, passamos horas conversando e inventando histórias onde nos aventuramos em mundos mágicos e distantes, mas ao mesmo tempo tão próximos e reais como o aroma encantado de nossos pijamas.

Talvez você deva estar pensando agora que eu seja um adulto sentindo falta da minha infância e tentando colocar todos os bons momentos, de preferência, é claro, num pedaço de papel. Errado! Eu sou apenas um menino. Bem, um menino de cabelos grisalhos!

Vou tentar ser um pouco mais claro.

Quando sentimos que começamos a envelhecer, a idade do nosso espírito, que é o que realmente conta, começa a diminuir drasticamente, tornando-nos crianças novamente. A diferença está em detalhes como algumas rugas, ossos doloridos, cabelos de fantasma e um gosto incomum por sopas; seja qual tipo for. Contanto que venham em pratos fundos e acompanhadas por um bom pedaço de pão. Existe também a parte de esquecer algumas coisas, mas na infância acontece o mesmo, embora descaradamente proposital! Você, dependendo de sua idade, possivelmente esteja se perguntando por que eu não mencionei o mau humor característico dos mais velhos. Tudo bem. Deixe-me novamente lhe dizer mais uma coisa. Talvez duas.

Eu tentei viver plenamente minha vida até aqui, portanto foram poucas as vezes que me deixei ficar de mau humor. E segundo, não existe esse negócio de “mais velhos”; apenas na opinião dos que ainda não se tornaram velhos! Parece maluco, não é mesmo? Mas você se esqueceu? Nós estamos apenas fazendo a viagem de volta! A propósito, uma coisa que você deve realmente esquecer é aquele ditado que diz que “não nos tornamos mais velhos, e sim mais sábios”. Pura baboseira! Como regredimos ao estado de quase criança (os detalhes, lembra?), nos transformamos em pessoas mais simples e generosas. Talvez, aí resida a sabedoria. E pensar que ela sempre esteve conosco desde o início. Quer uma prova de o que eu estou falando é verdade? Tudo bem. O que você acha que eu estou usando enquanto escrevo estas linhas? Se você pensou em pijamas, acertou! No momento não está tão frio para eu saborear uma caneca de chocolate quente, mas os biscoitos recheados estão aqui.

Existem mais algumas pequenas coisas sobre pijamas que é interessante ser dito antes desse capítulo terminar.

Acontece uma coisa engraçada enquanto a noite nos vence fechando nossos olhos com suas mãos pesadas e escuras. Com pijamas, durante o sono, a probabilidade de você sonhar que está voando é altíssima.  Espere, vou colocar de outra forma. Tudo o que você mais deseja em sua imaginação, tudo o que você gostaria que se tornasse real, acontece entre sua cama, você e o céu neste momento. No meu caso era voar, e acredito que todas as crianças tem esse desejo também.

Na manhã seguinte acordamos sem vontade de acordar. Isso soa estranho, mas depois de termos “voado” a noite inteira queremos apenas aproveitar o máximo de nossa cama e de nosso pijama como se tivéssemos pousado numa pista macia e convidativa. Mas, de repente, acontece o inevitável. Sentimos o cheiro de torradas com manteiga, do leite e café quentinhos, bolo de laranja e outras guloseimas vindo da cozinha. Não mencionei o meu cereal preferido porque não conheço nenhum que você consiga “cheira-lo” à distância. E então, quando nos levantamos, ainda um pouco grogues e resistentes, lembramos que temos de enfrentar aqueles nossos velhos inimigos antes de chegarmos à cozinha: a escova e a pasta de dentes. É incrível, mas parece ser outra regra do mundo encantado das crianças; nada de escovar os dentes, embora nossos pais pensem o contrário. Talvez, essa seja a única parte ruim que os pijamas nos lembrem. Mesmo assim, ainda estamos com eles, e depois da vencer a batalha nos sentimos como heróis famintos; mesmo que um pouco sonolentos e com o hálito mais fresco do que gostaríamos. Bem, o final você já sabe. Depois do café nos arrumamos, ganhamos um beijo de nossos pais e vamos para escola. Porém, mais tarde, sabemos que estaremos com nosso querido e velho amigo.

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É uma pena que a maioria de nós queira se tornar adultos logo. Quando isso acontece e nos abarrotamos de tudo o que a vida tem a oferecer, esquecemos dos pequenos e maravilhosos detalhes que ficaram grudados em nossos pijamas. É engraçado também que, quando começamos a avançar na idade, fazemos o possível para retardá-la, sem perceber que estamos adiando a viagem de volta para o mundo encantado. Não estou dizendo que não há experiências ótimas à medida que crescemos, mas se deixarmos um espaço em nossos corações para o nosso velho amigo pijama, mesmo que seja bem pequeno, aproveitaremos muito mais a curta jornada da vida.

Dê-se ao pequeno esforço de fazer algo simples. Experimente esquecer-se um pouco da faculdade, trabalho, cartões de crédito, relacionamentos complicados, e procure seu pijama. Se você não o possui mais, vá até a loja mais próxima, compre um, volte para casa e vista-o; de preferência à noite. E se estiver frio… poxa, você tirou a sorte grande! Se ainda você tiver o pijama de quando era criança, melhor. Basta apenas segurá-lo próximo ao corpo e deixar-se levar pelas lembranças. Se sua infância foi difícil, não desanime, apegue-se àqueles momentos de sonho e fantasia próprios das crianças quando estão em dificuldades, concedendo-lhes a dádiva da fuga. Se o seus familiares ou amigos forem tão malucos como você e eu, convide-os para juntos fazerem a viagem. Seria como uma festa do pijama diferente! Mas, cuidado, eles podem querer interná-lo!

Existe uma outra maneira de fazer isso que em minha opinião é tão gratificante quanto a primeira.

Se você têm filhos chegue mais cedo em casa e passe mais tempo com eles. Próximo à hora de dormir, com pijamas, é claro, traga-os para a sua cama ou vá até ao quarto deles. Converse, conte histórias, brinque, divirta-se. Mostre-lhes seu álbum de fotos de quando era criança e dê boas risadas. Durante esses momentos reserve um pequeno pedaço de tempo para observá-los. Em seguida, procure em sua mente momentos felizes de quando era mais jovem e transporte esses sentimentos direto para o seu coração, que é o lugar deles. Deixe as preocupações de uma vida de responsabilidades em pequenas caixas etiquetadas e mande-as para o sótão de sua mente, que é realmente o lugar delas; no outro dia você poderá acessá-las como bem quiser, contanto que seu sótão seja organizado. Por fim, quando perceber o sono chegando, abrace seus filhos e durma junto com eles. Talvez você consiga pegar carona em um de seus sonhos e consiga voar novamente! Tente fazer isso pelo menos uma vez por semana e sinta a diferença, pois quando você acordar de manhã com o seu pijama, ou ao lado das crianças, vai notar que algo antigo e mágico está retornando. Algo que faz a vida ter mais sentido e ser mais agradável. Aproveite o que você aprendeu e mantenha isso aceso em seu coração; nem que seja uma pequenina chama. Mas não se esqueça de escovar os dentes!

Provavelmente você já compreendeu o que realmente eu quero dizer nesse capítulo com nome incomum, mas vou tentar ser mais específico.

Não deixe os pequenos momentos aparentemente esquecidos de sua infância passarem em branco ou se perderem. Saiba que são esses mesmos momentos que nos tornam pessoas melhores, pois neles aprendemos a ser mais humildes e a ver a vida de forma menos complexa. Gaste o tempo que for necessário cultivando-os, e observe mais atentamente as pessoas que você ama. Entretanto, mais importante do que isso, mostre-lhes que elas não estão em pequenas caixas em sua mente, mas sim em seu coração.

Há algo interessante que também pode ser feito juntando-se a todos esses pequenos conselhos, e que por vezes se torna até divertido, mas nem por isso menos significativo.

Quando estiver com problemas, enfrentando situações difíceis, seja no trabalho, em casa ou em qualquer outro lugar, tente imaginar as pessoas à sua volta usando pijamas. É bastante provável que você se surpreenda com as respostas que surgirão em sua mente. Contudo, a melhor parte, é notar seus olhos se tornando mais úmidos do que o normal, e que um sorriso escapa de seus lábios, deixando seu espírito mais jovem e mais receptivo.

E, por favor, tenha sempre à mão o seu pijama. Tudo bem, eu exagerei. Mas que tal pelo menos uma foto dele na carteira? Ou então algumas fotos das crianças? Você é que sabe.

Droga! Esqueci três coisas “superimportantes” que os pijamas também nos fazem lembrar; desculpe-me mais uma vez. Talvez existam outras que eu não mencionei, mas com certeza não são nada comparadas a estas: guerra de travesseiros antes de dormir, assaltos à geladeira no meio da noite e, no café da manhã, qualquer pasta que contenha amendoim ou chocolate!